30 março 2005

tudo tem um preço

O dia estava quente e no céu não se via nem uma nuvem. Havia na atmosfera uma serenidade apenas quebrada por uma subtil sensação de que algo estava para acontecer.

Sentado na berma da estrada, à sombra de um chaparro, enquanto aguardava o regresso da equipa de biólogos do instituto que se tinha embrenhado pelo campo fora para fazer um levantamento dos níveis de mercúrio no solo, o homem olhava com atenção a enorme ave que pairava lá no alto por cima da agreste e seca paisagem alentejana. Com aquele perfil e aquele modo de voar... era sem dúvida uma águia. Com as imensas asas abertas, desenhava círculos largos, lentamente, com certeza procurando com o seu olhar acutilante alguma presa no solo. Talvez algum pequeno roedor a quem ou os deuses ou o destino tivessem determinado que hoje seria o seu fim.

Mas algo de estranho acontecia, a menos que os olhos o estivessem a enganar. Parecia-lhe ter visto uma pequena hesitação no voo da águia, como se a ave estivesse ferida e tivesse dificuldade em coordenar o bater das asas. Mas ferida só se fosse por causas naturais pois ninguém se atreveria a usar uma arma. Há alguns anos que a posse e uso de armas, mesmo as de caça, assim como a própria caça, estavam formalmente proibidas em todo o território nacional desde que os ecologistas tinham chegado ao poder. O homem continuou a contemplá-la. Não havia dúvida. A ave batia as asas de uma forma algo descontrolada e rodopiava no ar começando a perder altitude. Viu que a ave batia as asas num desespero cada vez maior numa vã tentativa de se manter no ar e que tombava rapidamente. Resolveu ir ver o que tinha acontecido com a águia e se seria possível fazer alguma coisa. Dirigiu-se ao pequeno morro atrás do qual a ave se tinha despenhado. Passou o morro e viu-a, tombada a poucos metros, imóvel. Aproximou-se.

Ao chegar ao pé da ave caída no solo e à medida que se ia aproximando do corpo dela ia-se também apercebendo da realidade. A águia não era verdadeira. Não era um animal natural. Tratava-se de um cyborg, um organismo cibernético, autónomo e animado, maravilhosa proeza da ciência e da técnica que naqueles imensos campos tinha feito renascer para gáudio dos visitantes aquele animal magnífico, para sempre extinto!

2 comentários:

Isabel Magalhães disse...

assusta-me estarem a matar a nossa civilização... a exterminarem espécies...

há, todos os anos, uns que se indignam, organizam petições, fazem abaixo-assinados, e outros - os poderosos - que continuam a chacinar focas, golfinhos, a esfolar cães vivos - a grande moda das peles na próxima colecção outono/inverno...

Eu sou uma adepta - não praticante - do tiro aos pratos. Poupam-se as aves e desenvolve-se a indústria cerâmica que a par com as outras indústrias deve andar 'pelas ruas da amargura'!


bj.

José António disse...

Olá Isabel,

Precisamos - urgentemente - de reencontrar o nosso ponto de equilíbrio no ambiente.

Somos seres naturais, mas estamos a matar a natureza. Isso só pode ter uma consequência.

bjs,