30 março 2005

a máquina que zumbia

O dia estava cinzento como há muito não se via. Um tecto de nuvens escuras corria rapidamente transportado pela brisa. As nuvens pareciam acariciar as colinas que flanqueavam o pequeno vale acastanhado. Acastanhado porque lhe faltava a água que o tornaria florescentemente verdejante. Sebes de silvados ressequidos rodeavam a quintinha de rectângulos terrosos, desenhados a régua e esquadro. Rectângulos de terra a aguardarem, a pedirem, serem rasgados pela vida vegetal.

No alto do monte a máquina zumbia como um enorme zângão. A sua antena parabólica virada para o céu emitia a energia que a fazia zumbir. Em volta da máquina o homem, com um desbotado fato-macaco vermelho, mexia-se atarefado como uma formiga de ganga. Rapidamente, correndo de um lado para o outro lia mostradores e accionava interruptores e manípulos cujos segredos só ele conhecia. O dia acinzentava-se cada vez mais. A máquina não parava, assim como o homem de ganga. Bruscamente caiu a primeira gota de água. O homem sorriu com evidente prazer e continuou na sua estranha tarefa. Pouco depois caiu a segunda gota, depois a terceira e por aí fora. Não tardou que uma grande chuvada se abatesse sobre toda aquela área alimentando o solo sedento e ressequido que a absorveu ávido. A água, vital à vida como o ar, inundou os campos alimentando as plantas e sobretudo alimentando as sementes. Só então o homem se deu por satisfeito e pondo a máquina a funcionar em automático voltou costas e retirou-se, descendo a ladeira pelo caminho pedregoso que conduzia à pequena casa, lá em baixo no vale junto ao ribeiro agora engrossado pela chuva.

2 comentários:

Isabel Magalhães disse...

Gostei das cores com que pintaste o teu conto.

* :)

José António disse...

Olá Isabel,

Óptimo!
Fico feliz por teres gostado.

Acho que não consigo olhar o mundo, mesmo o ficcionado, sem o ver a cores.

bjs,