30 março 2005

Alice e o seu maravilhoso país

Aquele país sobrevivia sozinho no panorama económico mundial. Era um dos poucos que não fazia parte de nenhuma federação económica continental depois do grande e histérico boom federativo que levara a maioria das nações do planeta a organizarem-se em comunidades económicas, verdadeiras federações de estados submetidas a poder central na respectiva federação. Mas não se pretendia ficar por aqui. Os economistas, tecnocratas que procuravam por todo o lado influenciar ou mesmo conquistar o poder, procuravam a passos largos o caminho para uma federação mundial, a sua grande ambição, o seu grande sonho. Mas aquele país tinha resistido pois não abdicava do seu passado que fora afinal uma luta constante, permanente, mortífera e sanguinária pela independência nacional.
Nele também os tecnocratas tinham dominado o poder mas, apesar de terem enchido o território com uma trama de auto-estradas, pontes, túneis e viadutos, acabaram por ser expulsos e declarados inimigos-públicos-número-um. Ninguém queria voltar a ver os tecnocratas no poder a venderem a independência nacional a qualquer preço. Na sua passagem o sector produtivo tinha sido desmantelado, a educação e a saúde arrasadas. Isto durou até os maduros terem conquistado o poder com a queda dos tecnocratas e estarem a tentar tapar os buracos que estes tinham aberto. Apesar destas guerras e da degradação da qualidade de vida, continuavam a ter bastante sol em imensas praias ultra poluídas e era possível viver convencido de que tudo estava bem, beber uma imperial a acompanhar um pratinho de caracóis e enfrascar-se à noite na discoteca, que era o que almejava uma grande parte da juventude.

Era neste maravilhoso país que vivia Alice. Habitava um pequeno mas bonito apartamento num 54º andar de um prédio-dormitório na periferia da grande cidade, do outro lado do rio. Tinha televisão por cabo com 800 canais, computador com ligação à velha mas ainda útil internet, a qual cobria todo o planeta e era conhecida na gíria por ‘a rede dos pobres’ porque quem tinha dinheiro utilizava a galaxynet, a rede com ligação instantânea a qualquer planeta da Galáxia e a qualquer nave, mesmo em trânsito desde que a mesma se encontrasse dentro de um raio de duzentos parsecs. Tinha também cozinha bem equipada, até micro-ondas tinha. E a renda não era nada cara, pouco menos de 3/4 do salário dela. Ali vivia Alice um terço do seu tempo. O resto passava-o a trabalhar ou enfiada nos transportes colectivos, a caminho do emprego, numa empresa bancária, ou regressando a casa. Em redor do prédio e envolvendo-o completamente havia um jardim relvado com bancos de design moderno, repuxos coloridos e sanitários para cães, gatos e iguanas. Alice tinha um sonho. Mudar para um apartamento maior, mais moderno, melhor equipado, com televisão por cabo com 900 canais e dois micro-ondas na cozinha. Mas as rendas exorbitantes tinham até agora impedido que tal se concretizasse.

Naquele dia, Alice tinha conseguido chegar a casa mais cedo do que era habitual. Também, saíra mais cedo do emprego com a desculpa de que tinha que levar o peixinho vermelho ao veterinário porque o achava pálido, cor-de-rosa, e com pouco apetite. Era o único ser vivo que com ela partilhava o apartamento. Um peixe vermelho de água doce, comodamente instalado, sobre o móvel da cozinha, num aquário redondo. Alice abrira a porta e entrara atirando com a bolsa para cima do sofá e atirando os sapatos para um canto com dois pontapés no ar. Dirigira-se à cama e deixara-se cair de bruços sobre esta, adormecendo mal tocara na coberta. Dormiu bastante tempo. Acordou com a campainha do vídeo-telefone instalado na sala. Levantou-se para atender, espreguiçou-se e dirigiu-se à sala. Mas não chegou lá, apesar de ter passado a porta. Reprimiu um grito. O lugar onde se encontrava não tinha nada a ver com o seu apartamento.

Ao passar a porta sentira um súbito esfriar à sua volta e a luz desaparecera escurecendo de repente. Estava num espaço enorme, gigantesco, escuro e frio. Tanto quanto lhe permitia ver a pouca luminescência presente de origem indeterminada, olhando em todas as direcções não havia fim. O primeiro impulso foi dar um passo à retaguarda mas isso não produziu qualquer efeito. Continuou naquele lugar estranho e assustador sem saber como lá fora parar e sem saber como sair. Começou a deambular sem sentido, tendo apenas cuidado com os sítios onde punha os pés. Mas o chão não apresentava obstáculos visíveis. Era uma imensa superfície negra ligeiramente brilhante perfeitamente plana e semelhante a plástico. Andava já há bastante tempo começando a ficar cansada quando sentiu que a temperatura se alterava. O frio transformava-se em calor, por enquanto suportável. Por enquanto, porque a temperatura não parava de subir, se bem que essa subida fosse lenta. O seu cérebro trabalhava a duzentos e os seus olhos mexiam-se em todas as direcções procurando compreender o que lhe acontecera e tentando localizar uma saída. Tanto andou que se apercebeu a pouca distância de um clarão avermelhado. Um pequeno clarão vermelho a cerca de dois metros do solo.
Aproximou-se e à medida que o fazia começou a perceber que o clarão pertencia a um letreiro com uma palavra luminosa. Quando estava já bem perto conseguiu ler o letreiro. Dizia ‘EXIT’. Por baixo deste uma barra horizontal indicava uma saída de emergência. Correu para ela e empurrou com força a porta de metal escuro apoiando as mãos na barra. A luz cegou-a momentaneamente e fechou os olhos quando passava a porta. Ouviu esta bater com estrondo atrás de si. Com medo abriu lentamente os olhos.

Estava no exterior. Sentia o ar fresco acariciar-lhe o rosto. Olhou em redor, lentamente. A porta tinha desaparecido e Alice encontrava-se agora numa magnífica praia junto ao mar, com os pés a enterrarem-se na areia quente e fofa.
Não se via vivalma e apenas se ouvia o marulhar do mar e o rebentar constante das ondas. Voltou-se e afastou-se mais para cima, onde se sentou numa laje de rocha. Alice ali ficou, sem pressa, sentada a contemplar o mar muito azul sobre o qual alegres gaivotas volteavam em busca de comida ou talvez apenas pelo prazer de voar. Acabou por se recostar e fechou os olhos sentindo o calor do sol. Inevitavelmente adormeceu. Acordou com a campainha do vídeo-telefone.

Levantou-se estremunhada. Estava no quarto e tinha adormecido sobre a cama. Que raio de sonho! Ainda zonza, dirigiu-se à sala para atender a chamada mas parou atraída por um brilhozinho no chão. Pensou que fosse algum fragmento de vidro e baixou-se para o apanhar.
Areia, era um grãozinho de areia!

2 comentários:

Isabel Magalhães disse...

......... deliciosamente assustador

"E a renda não era nada cara, pouco menos de 3/4 do salário dela."! :)))

*** I.

José António disse...

Olá Isabel,

A renda dela é pouco mais ou menos como com a gente... :)

Devagar-zinho as coisas vão mudando...
E a ficção transmutando-se em realidade...

bjs,