30 março 2005

os relógios e os demónios cornudos

Joaquim levantou-se de manhã à hora habitual. Como era costume apertou a bracelete do relógio em torno do pulso esquerdo. E olhou para o mostrador para ver as horas. Estranhamente os ponteiros estavam parados. Tinha que passar pelo relojoeiro e verificar a pilha.

Dirigiu-se à sala para ver as horas no relógio de parede. No lugar do relógio apenas se via um enorme buraco negro na parede. Buraco do qual se sentia sair uma estranha aragem gélida. Recuou confundido e um pouco assustado. Olhou de novo para o pulso. O relógio tinha desaparecido. Provavelmente caíra mas como teria tal sido possível sem ele dar por isso? Ainda mais estranho e assustador era aquela mancha avermelhada que lhe marcava o pulso no sítio onde estivera o relógio. Mancha que há pouco quando pusera o relógio, tinha a certeza, não existia.

Saiu para a rua e olhou na direcção da velha torre da igreja na qual existia um velho relógio de algarismos romanos que ainda funcionava apesar de estar sempre atrasado cerca de dois minutos. Tal como já esperava, a meio da torre branca no sítio do relógio existia um enorme buraco negro para o qual alguns transeuntes olhavam tecendo comentários entre si.
Joaquim dirigiu-se ao seu carro estacionado no parque frente ao prédio e entrou nele sentando-se ao volante e accionando a ignição pô-lo a trabalhar. Arrancou pela rua fora rapidamente desenfiando-se por entre o trânsito, sempre caótico àquela hora da manhã. Pelo caminho foi observando os sítios onde existiam relógios e em todos eles sempre a mesma situação. Os relógios tinham sido substituídos por enormes orifícios negros junto dos quais se formavam magotes de gente comentando os acontecimentos e dificultando a circulação de veículos e peões. Eram também visíveis algumas equipas de reportagem de rádio e televisão correndo frenéticas, filmando os buracos e entrevistando pessoas. Nem um guarda da PSP de serviço à porta de um banco escapou de ser entrevistado. Enquanto conduzia olhou para o pulso. A mancha continuava no mesmo sítio sem qualquer alteração. Bem, pelo menos não lhe doía nem causava qualquer incómodo. Teria que ir ao médico ainda hoje saber o que era aquilo.

Chegou ao local onde trabalhava. Estacionou o carro na cave do edifício e, metendo-se no elevador, dirigiu-se ao seu escritório sentando-se à secretária e ligando o rádio para se distrair com música e ouvir os noticiários, o que fazia habitualmente. Foi assim que Joaquim soube ao fim da manhã, que por todo o lado e a toda a gente tinha acontecido a mesma coisa e que a situação se estava a tornar caótica estando o governo reunido para decidir se decretava ou não o estado de sítio. Não existia em parte alguma um único relógio e até mesmo relógios que não funcionavam como o da estação de comboios de Campolide tinham desaparecido. Falava-se no Apocalipse, no fim-do-mundo e os bruxos, profetas e videntes tinham saído à rua. O grande negócio era no momento a venda de amuletos de toda a espécie, principalmente os de origem brasileira. Olhou para a parede em frente onde costumava ter um relógio redondo, um belo relógio que um cliente lhe oferecera e que, claro, tinha sido substituído por um buraco negro do qual saía uma inexplicável brisa gelada.

Levantou-se do cadeirão e lentamente dirigiu-se ao buraco com a intenção de espreitar e matar a curiosidade. Na mão levava uma pequena lanterna de bolso, também um brinde de um cliente, que tinha na gaveta da secretária para qualquer emergência pois faltava muitas vezes a luz. Chegado junto da parede e do buraco acendeu a lanterna e apontou-a para o interior deste. A luz era fraca e era difícil ver alguma coisa mas pareceu-lhe divisar na penumbra do fundo do buraco uma forma escura que se movia. Afoito enfiou o braço dentro do buraco procurando levar a lanterna mais à frente e apontar para a forma móvel. Conseguiu.

E assim viu pela primeira vez um demónio devorador do tempo. Era pequeno, pouco maior que um gato de rua, o corpo negro como carvão e coberto de espessos e abundantes pêlos, lembrava vagamente um pequeno macaco como os que surgiam nos documentários do National Geographic. Na cabeça redonda, abaixo de um par de pequenos chifres cinzentos, tinha um par de olhos brilhantes, enormes e vermelhos cor de sangue, e a sua boca rasgada ostentava um sorriso estranho e cínico do qual despontavam duas ameaçadoras presas amareladas, enquanto o fitava do fundo do buraco. Tirou rapidamente o braço do buraco e recuou assustado com aquela visão. O ser, por seu turno, aproximou-se da abertura e espreitou para fora sorrindo com grande à vontade. Joaquim, sentado à secretária para onde tinha voltado, olhava apavorado sem saber o que fazer. À luz do dia o animal tinha um aspecto ainda mais horripilante e ameaçador. Que horas seriam? Interrogava-se Joaquim.

A julgar pela fome que sentia talvez horas de almoço. Pôs de lado os papéis em que estava a trabalhar, levantou-se e saiu para ir ao restaurante do costume. Almoçou sozinho, rapidamente, um caldo verde e um arrozinho de polvo acompanhado de um excelente tinto alentejano. Em cima, uma bica e um bagaço, para rebater. Depois de pagar regressou ao escritório. O bicharoco lá continuava à espreita no buraco. E, de acordo com os noticiários que continuava a ouvir na rádio, havia imensos testemunhos de aparições de bichos daqueles à entrada dos buracos sem que se soubesse o que eram ou o que pretendiam. Aquilo já se estava era a tornar chato como a porra! Pondo de lado o trabalho Joaquim regressou a casa farto de relógios desaparecidos e buracos com demónios a viver lá dentro que ninguém explicava.

Chegado a casa dirigiu-se à sala onde tinha o bar e serviu-se de uma dose bem generosa de aguardente velha que um primo lhe oferecera pelo Natal. Sentou-se no sofá a saborear a bebida. Olhou para a parede. O buraco lá continuava, com um daqueles demoniozinhos sacanas a espreitar. Aquecido e embrutecido pelo álcool, Joaquim não esteve para se chatear mais. Levantou-se, foi ao armário da despensa e regressou empunhando uma espingarda caçadeira. O demónio olhou estupefacto para ele não se apercebendo do que se preparava para acontecer. Joaquim levantou a arma apoiou-a com força no ombro apontou e, sem hesitar ou não fosse ele um exímio caçador de longa data, premiu o gatilho. A poderosa carga de chumbo saiu compacta disparada a grande velocidade e carregada de energia destruidora e apanhou o atónito demónio em cheio nos cornos, desfazendo-lhe a feia carantonha e projectando-o com violência para o interior do buraco onde desapareceu sem um pio. Joaquim foi à despensa arrumar a arma e quando voltou tudo tinha voltado à forma inicial.

Lá estava na parede no lugar do costume o relógio a funcionar perfeitamente. Olhou para o pulso onde o seu relógio estava como o tinha posto de manhã. Serviu-se de mais uma valente dose de aguardente e sentou-se satisfeito a saboreá-la.
Nunca mais os demónios devoradores do tempo voltaram a manifestar-se pois espalhou-se entre eles que um tinha levado um tiro nos cornos! Tudo está bem quando acaba bem.

2 comentários:

Kastif disse...

Ao ler sua estória tenho que lhe dizer que tive um sonho muito semelhante, somente a figura do demônio diferia um pouco

José António Baptista disse...

Olá Kastif,

Grato pela visita e comentário.
É deveras curioso que uma estória completamente ficcionada, represente afinal um sonho real de uma pessoa.
O que é o sonho? O que é a ficção? O que é a realidade?
Como eu acho que tudo não passa duma grande ilusão, talvez exista um limbo onde todas estas coisas se tocam. :)

Cumprimentos,
José António Baptista