30 março 2005

o banco do jardim solitário

Sentada no banco do jardim, recostada, as pernas cruzadas, a jovem mulher modestamente vestida olhava em frente parecendo esperar alguém. O banco era um banco magnífico, num jardim maravilhoso. Todo em fibra de carbono tinha mecanismos computorizados de ajuste ergonómico e adaptava-se fisicamente ao peso e à configuração do corpo de quem se sentava nele. O presidente da câmara não se poupava a esforços, nem poupava o dinheiro dos contribuintes, para lhes proporcionar o que de melhor a técnica tinha concebido. Podiam não ter mais nada, mas tinham jardins!
A jovem mulher, de um pacote colorido que segurava na mão, retirava palitos de batata frita que levava à boca com um pequeno garfo de plástico. Mastigava com evidente prazer, saboreando cada palito como se este fosse um objecto sexual. Quando acabou de comer amachucou o pacote e atirou-o para o caixote do lixo ao lado do banco. Com um 'blorp!' e um 'pfff!' o caixote tragou o pacote e os seus mecanismos internos de reciclagem vaporizaram o material soltando uma pequena nuvem de vapor de água no ar. A jovem mulher fixou o olhar em frente e ali ficou naquela imobilidade de quem espera e não desespera.
Foi sem qualquer sinal de aviso, sem qualquer grito de dor que o seu corpo se começou a desfazer. Amoleceu como se feito de cera e começou a abater sobre si mesmo. A sua carne e os seus ossos liquefizeram-se, transformando-se numa pasta escura de aspecto sanguinolento que escorreu para o chão pingando e formando uma poça debaixo do banco. A roupa, vazia de um corpo, tombou nas tábuas do banco e apodreceu desfazendo-se em pó rapidamente como se por ela de súbito tivessem passado vinte séculos e desapareceu levada por uma aragem fria que tinha vindo com o entardecer. Da jovem mulher que comia batatas fritas sentada no banco do jardim sobrou apenas aquela poça debaixo do sítio onde ela tinha estado, poça que mesmo ela não ficou ali por muito tempo. O jardineiro tinha chegado arrastando a mangueira atrás de si para regar os canteiros, mantendo vivas as plantas. Começou a regar os canteiros com grande cuidado e atenção, e reparando na poça avermelhada sob o banco dirigiu para ela o jacto de água, que arrastou aquela pasta, o que restava da jovem mulher que comia batatas fritas sentada no banco, para a sarjeta de mistura com batatas que tinham caído no chão e algum lixo que escapara à passagem da vassoura.
E assim, solitário, ali ficou o banco do jardim.

5 comentários:

Isabel Magalhães disse...

Vida e morte em séculos futuros!

* :)

José António disse...

Olá Isabel,

Futuros... ou... passados. :)

Deixo ao critério do leitor.

bjs,

Isabel Magalhães disse...

Zé;

......... com tanta tecnologia só pode ser no futuro!

Digo eu! :)))

bj.

José António disse...

Olá Isabel,

É uma forte possibilidade.
Mas sera que podemos ter a certeza de que não existiu um passado remoto assim...? :)

bjs,

Isabel Magalhães disse...

'na mouche'!


claro que não podemos ter essa certeza... ainda não sabemos de onde viemos e para onde vamos.



***
I.