30 março 2005

ai que bem que se está no campo!

Ai que bem que se está no campo! Pensou Cipriano, estendido na relva macia à sombra de um enorme castanheiro junto à margem do riacho.
Este corria manso serpenteando pelo campo fora sob um céu muito azul. Cipriano fechou os olhos com a óbvia intenção de dormir. Enquanto se sentia afundar na sonolência, ouvia o riacho murmurar nas pedras, sob o esvoaçar de pequenos passaritos que piavam em coro com os grilos, o que ajudou a embalá-lo no sono. Adormeceu em sossego. Dormiu algum tempo. Acordou com o som de um besouro alarmante. Era o seu relógio de pulso, que Cipriano tinha ajustado para o alertar ao fim de duas horas. Levantou-se, sacudiu as pernas endireitando as calças, ajeitou a camisa e a gravata, vestiu o casaco e, passando por trás da árvore, entrou num corredor fracamente iluminado semi-oculto por uma moita de silvas.

O corredor conduziu-o a um cubículo cinzento com cartazes coloridos nas paredes e um guichet onde se lia "Campo, Marcações e Pagamento". Acercou-se do guichet e estendeu o seu cartão de crédito à jovem empregada exageradamente maquilhada que rapidamente efectuou o pagamento e lhe devolveu o cartão juntamente com uma factura e recibo, despedindo-se sorrindo, com um: Bom dia e volte sempre!
Cipriano, ao mesmo tempo que guardava os papéis na carteira, despediu-se também e saiu do edifício para a rua onde, no parque de estacionamento, o seu carro o esperava. Entrou no carro e arrancou perdendo-se rapidamente no trânsito asfixiante da cidade, em direcção ao seu local de trabalho e deixando para trás aquele enorme edifício cinzento de ferro e cimento, permanentemente envolto numa neblina fétida.

Amanhã voltaria outra vez ao Campo porque afinal... ai que bem que se está no campo!

4 comentários:

Isabel Magalhães disse...

Já faltou mais para nos cobrarem esse bilhete... e outros!

Aqui no concelho - e se quiseres aceder à praia - já não há onde deixar o carro sem ser a pagar.

Outra situação que me ocorreu agora... os apartamentos nos pisos superiores são mais caros - por causa da "vista", dizem...! Mas a "vista" não é de todos? Como é que passou a ser pertença duma qq sociedade de construção ou uma imobiliária?

Não há por aí um planeta com atmosfera compatível com os nossos pulmões? :)

José António disse...

Olá Isabel,

Cada vez mais temos que 'pagar' para aceder ao que é nosso por direito próprio: a Natureza!

Temo que esta questão se agudize cada vez mais, e que um dia paguemos 'mesmo' o ar que respiramos...

bjs,

Isabel Magalhães disse...

Zé;

......... se continuaros a 'matar o planeta' vamos pagar o ar, sim, mas com a própria vida...!

"Não herdámos a Terra dos nossos Pais. Pedimo-la emprestada aos nossos Filhos!"
bjs.

José António disse...

Olá Isabel,

Já estivemos mais longe.
O que é o turismo rural...!?

É só uma questão de o trazer para dentro da cidade, para o interior dum edifício 'virtual'...

bjs,