30 março 2005

recordações de um velho viajante das estrelas

Hoje, cada vez mais perto do fim da vida, a pele antes lisa e brilhante agora enrugada e flácida, os olhos esforçados começando a falhar, vergado pelo peso dos anos, cansado, velho viajante das estrelas, recordo com saudade, por vezes mesmo com um pouco de amargura, o tempo em que descer num qualquer planeta desconhecido era algo que eu fazia com um frémito de emoção a percorrer-me o corpo como se de um encontro de adolescente se tratasse.
A descida, por vezes violenta, em solos desconhecidos e traiçoeiros, a saída da nave encerrado no meu escafandro, simultaneamente prisão e protecção, felizmente para mim até hoje nunca esquife, o corpo a tremer, os primeiros movimentos, lentamente, tacteando, passo a passo, com grande cuidado, procurando identificar qualquer perigo mas apreciando também as visões maravilhosas que muitas vezes se desenrolavam diante dos meus olhos, padrões e movimentos inacreditáveis, cores fantasticamente inimagináveis, infernos imensos, fornalhas abrasadoras, autênticas fontes de vida cósmica. A sensação grandiosa e assustadora, o privilégio, de estar a assistir ao nascimento de universos, a big-bangs, eternos recomeços da grande roda do existir, visões da eternidade, encontros com Ele.
Assim percorri desbravando durante uma vida inteira toda a Galáxia para que hoje os seus caminhos sejam conhecidos e seguros para os viajantes actuais, e para os milhões de colonos que saídos da Terra se espalharam pelos planetas mais promissores, novos mundos, novas índias e novas américas. De entre todas as descidas que fiz ao longo da minha vida de explorador estelar recordo com prazer mas sempre com um gélido arrepio de estranheza pelo que teve de fantástico, de irreal, de surrealista, a descida que fiz em Hermes.
Ainda hoje me interrogo sobre o que verdadeiramente aconteceu, e que guardei para mim não tendo comunicado nada nos relatórios, até porque o Governo Terrestre desinteressou-se completamente em relação a Hermes não tendo efectuado nenhuma acção posterior para a sua colonização, ficando o seu segredo guardado para sempre. Não se sabia nada a respeito desse planeta pois um manto permanente de nuvens impedia a observação visual directa e os seus fortes campos magnéticos causavam enormes interferências nos instrumentos das sondas pelo que a solução era efectuar uma descida directa no planeta. Foi essa a ordem que recebi quando me encontrava a meio caminho de Aldebaran e assim dirigi-me rapidamente para Hermes. Posta a nave em órbita estacionária, instalei-me no módulo de descida e accionei os comandos.
O computador entrou em funcionamento e o módulo soltou-se entrando em queda livre em direcção à superfície ainda desconhecida de Hermes. As nuvens de vapor sulfuroso envolviam o módulo e tornavam-se cada vez mais densas à medida que vertiginosamente descia com a estranha sensação de que nesta descida havia algo que a ia tornar bastante diferente das outras e que eu iria ficar para sempre marcado. Contudo, não era uma sensação de tragédia mas antes uma sensação de ir penetrar noutra dimensão existencial. Noutro universo. Os travões foram automaticamente accionados pelos sistemas de navegação e o módulo pousou suavemente na superfície de Hermes, não sem antes se ter inclinado ligeiramente a bombordo fruto de uma provável cedência do terreno sob o peso das sapatas de aterragem. Feitas e registadas as primeiras análises e medições à atmosfera e ao solo pelos sistemas automáticos chegou a altura de sair.
Abri a escotilha pela qual nuvens de vapor voltearam e penetraram no módulo e sai para o exterior. O vapor amarelo formava um nevoeiro cerrado à minha volta envolvendo-me como uma estranha mortalha. Decidi em que direcção iria avançar após analisar as imagens sobre a topografia do terreno em que me encontrava. Uma cadeia de altas montanhas a poucos quilómetros, destacada da imensa planície pedregosa despertou o meu interesse e foi nessa direcção que resolvi avançar. Guiava-me por instrumentos pois a visibilidade era praticamente nula. Ao chegar às faldas da montanha piramidal deparei com um túnel imenso que penetrava profundamente na montanha e afoitamente entrei pelo túnel pois este certamente iria conduzir-me a algum lado e eu estava cheio de curiosidade.
A iluminação do meu capacete permitia-me avançar, e os instrumentos iam-me fornecendo informações constantes. A minha surpresa começou com a diminuição da densidade da névoa à medida que eu avançava pelo túnel e com as informações dos instrumentos que me indicavam que a composição da atmosfera se ia também modificando assemelhando-se muito à atmosfera da Terra numa região temperada, sendo assim perfeitamente respirável para mim. O receio e a cautela contudo fizeram com que eu conservasse o meu escafandro vestido. Tinha já avançado bastante pelo túnel quando este acabou bruscamente e a intensa luz do sol local me envolveu e momentaneamente me cegou.
Quando consegui de novo ver, o meu espanto foi indescritível. A imagem que me rodeava parecia uma impossibilidade. Encontrava-me num jardim verdejante pleno de relva e árvores floridas como se estivesse de novo na Terra. Mas eu sabia que estava em Hermes e aquilo tinha que ter uma explicação. Talvez a montanha envolvente provocasse uma bolsa atmosférica do tipo terrestre em que espécies vegetais do mesmo género se tivessem desenvolvido num estranho processo evolutivo e selectivo paralelo, a milhares de anos-luz do planeta azul. A verdade é que eu estava ali e era uma testemunha privilegiada da existência daquele local idílico, que certamente algumas pessoas mais crentes não hesitariam em considerar o Céu. Percebendo que não existia qualquer perigo despi o meu escafandro e resolvi explorar aquele estranho, impossível jardim, aquele verdadeiro éden. Assim fui caminhando ao longo de um ribeiro que suavemente murmurava por entre moitas verdejantes e margens de deliciosa relva, envolvido em nuvens esvoaçantes de belamente coloridas e grandes borboletas como eu nunca imaginara que pudessem existir. Em redor a paisagem pouco mudava, árvores por todo o lado proporcionavam magníficas sombras.
Foi com uma grande surpresa, que me fez de súbito estacar, que me apercebi que ao longe e na minha direcção vinha uma figura indubitavelmente humana. Um homem de aspecto idoso. Ligeiramente curvado para a frente, de mãos atrás das costas, vestido com roupas como eu nunca tinha visto mas que me recordavam vagamente imagens dos séculos XIX e XX aprendidas nos livros de história e em alguns velhos filmes de cinema com histórias passadas nesses séculos, caminhava calmamente, com ar meditativo. Quando chegou ao pé de mim parou e fixou-me com um olhar penetrante e interrogativo. Em dinamarquês, eu tinha comigo o meu tradutor universal AppleTranslator, cumprimentou-me apresentando-se:
— Bom dia senhor, permita-me que me apresente. Søren Aabye Kierkeggard. Sabei que Deus existe e está em toda a parte. A prova é que nos encontramos neste local que está em todo o lado e em parte nenhuma. Só lamento não ter ainda encontrado a minha muito amada Regina Olsen, apesar do que tenho caminhado.
E afastou-se, andando ao longo do regato e desaparecendo ao longe. Eu, pela minha parte, fiquei sem saber o que pensar. Que raio de sítio seria aquele? Existiria de facto? Pelo menos eu tinha a certeza que podia nomeá-lo: Hermes, o mensageiro. Sentia a sua essência envolver-me. Vencendo a imobilidade que o espanto causara no meu corpo retomei a marcha. Alguns passos andados eis que novo vulto se aproxima de mim. E de novo, desta feita em alemão, apresenta-se:
— Bom dia senhor, sou Martin Heidegger. Sabei que estou profundamente preocupado com o Dasein, o “ser-aí”. E ainda não o encontrei, nem mesmo aqui. Esse lugar onde o ser se desenvolve e pode ser atingido. A aparência é ocultamento.
E afastou-se, não sem antes me ter recomendado que meditasse bastante sobre a metafísica. Continuei a caminhar completamente estupefacto, e vi sentado na relva à sombra de uma árvore um homem que não precisou de se apresentar pois reconheci-o facilmente pelo seu ar grave, extasiado, de contemplação divina. Era Immanuel Kant. Cumprimentei-o com um aceno de cabeça. Num alemão perfeito dirigiu-me a palavra:
— Estou convencido que a electricidade causa uma doença generalizada nos gatos. E não se atreva a vir-me falar de Lampe!
Ao afastar-me, ainda o ouvi murmurar:
— ... o céu estrelado por cima de mim e a lei moral em mim.
Andei um pouco mais, enebriado que me sentia. Sentia-me como num sonho. Olhava à volta, via com nitidez as ervas, o regato, as árvores, as frescas sombras, mas... Aqueles personagens pareciam-me absolutamente reais, contudo...
— Absolutamente! Diz muito bem! — trovejou outra voz em alemão, atrás de mim. Sobressaltei-me, voltei-me de um pulo e deparei com Hegel. Pois assim se identificou:
— Georg Wilhelm Friedrich Hegel, qual é o espanto? Já que vos atrevesteis a devir até aqui, ficai sabendo que tudo o que é real é racional e tudo o que é racional é real! — e, virando-se bruscamente, afastou-se em largas passadas. Eu, fiquei literalmente a olhar o Infinito!
Depois de todos estes encontros, com a cabeça a rodopiar como uma nave caída num vórtice, rapidamente regressei pelo mesmo caminho à minha nave partindo para outro lugar e não tendo até hoje regressado a Hermes. Será que tudo aquilo foi real ou terei eu sido vítima de alguma alucinação? E tendo sido real como me pareceu, que local seria aquele? Onde está a Prova Ontológica?
Ainda hoje não sei a resposta a nenhuma das questões, mas fiquei convencido duma coisa: A existência precede a essência!

2 comentários:

Isabel Magalhães disse...

"— ... o céu estrelado por cima de mim e a lei moral em mim."

Excelente!

*** I.

José António disse...

Olá Isabel,

É magnífico e é o epitáfio do túmulo do Kant.

Só ele... :)

bjs,