30 março 2005

o homem e o televisor

O dia não estava convidativo para sair. Era uma pena porque era domingo, dia de folga para a maioria dos trabalhadores e também para os desempregados que viviam do rendimento mínimo.
Dias que ele habitualmente usava para ir à pesca com um amigo, num dos pesqueiros artificiais, com peixes cibernéticos, distribuídos por locais onde antigamente, segundo os historiadores, ficavam as margens de um rio chamado Tejo. Naqueles pesqueiros, por uma pequena quantia, podia-se passar algumas horas à pesca. O único inconveniente é que os peixes eram cyborgs, organismos cibernéticos, artificiais, impossíveis de comer. Também quem é que era capaz de comer o cadáver de um ser vivo como os nossos antepassados faziam? Nestes dias estava tudo facilitado com comida confeccionada em fábricas asiáticas! Comida higienicamente fabricada, perfeitamente sintetizada, absolutamente nutritiva. Recomendada pela Defesa do Consumidor e pela Saúde Pública. Assim, era necessário devolver os peixes pescados à saída com risco de uma pesada multa para os infractores.

A chuva caía copiosamente lá fora, ácida, destrutiva, corroendo tudo em que tocava e que não estivesse protegido por protectores anti-chuva ácida. Protectores que eram o último grito dos ecologistas, naturistas, floristas, budistas, maoístas, nudistas, e outros verdistas. Eram vendidos a preços acessíveis nas grandes superfícies e adaptados para qualquer utilização. Eram uma espécie de guarda-chuvas muito flexíveis, de tamanhos variáveis e feitos num material não corruptível. Eram ainda cem por cento recicláveis. Ele tinha dois na varanda. Um a proteger a cama do gato, o qual em todo o caso não andava à chuva fosse ela ácida ou não... e o outro a proteger um vaso com um cacto verdadeiro, uma preciosidade.

Vendo pela janela que chovia, ainda em pijama, sentou-se no sofá da sala apesar de ter acabado de se levantar. Com o telecomando ligou a televisão e seleccionou, de entre os oitocentos e setenta e seis canais disponíveis, o seu canal preferido. O FatelaTv Channel, o canal das telenovelas. Um canal que transmitia exclusivamente telenovelas, ininterruptamente, durante 24 horas.
Recostou-se para trás deliciando-se, ingenuamente, com as imagens estereotipadas e os diálogos idiotas da telenovela virtual uruguaia, montada em chileno, dobrada em mexicano, redobrada em argentino e legendada em norueguês, que estava a passar naquele instante. Tivera sorte. Era o primeiro episódio de uma nova. Assim poderia seguir a história desde o princípio!

2 comentários:

Isabel Magalhães disse...

É o que eu te digo...


procura-se um outro planeta com atmosfera compatível com a nossa...! :)

bj.

José António disse...

Olá Isabel,

Pois, o problema não é o 'planeta'. É mesmo o homem e a alienação a que ele de sua livre vontade, vá-se lá saber porquê, se sujeita.

Há como que uma atitude crescente de isolamento. Para esquecer a realidade?
E a importância que a tecnologia tem nisso, pela facilidade que proporciona?

bjs,